Minha vida numa moto
Viajando com garupa
Texto extraído da Revista Moto Online, por Luís Sucupira | 11.08.2010
Fotos de Fernanda Fernandes
Me vi muito nesse texto, ele relata muitas situações semelhantes a que vivi ano passado, quando viajei de garupa com o meu namorado, para Punta del Leste, em relação a bagagens. Saímos de Embu das Artes - SP, bem cedo, e com um peso, que até agora não sei como a scooter aguentou kkkkk. Apesar de viajar com frequência de moto, pilotando, essa foi a primeira vez viajei para tão longe, de garupa. Além disso, o texto nos dá dicas bacanas sobre viagem e pilotagem, vale a pena ler.
Na minha vida em uma moto desta semana vamos falar de garupas. Sim, garupas. Levar alguém na garupa da moto requer sintonia e confiança. Vale destacar que a maioria das pessoas não sabe andar na garupa de uma moto. Uma coisa interessante é quando o piloto vira garupa. Tem alguns que acabam tentando pilotar junto e acaba complicando a vida do motociclista. Mas para quem pega estrada o garupa pode ser não apenas um problema, mas vários ao mesmo tempo.
Lembro que certa vez fomos viajara Serra da Ibiapaba, no Ceará. É um lugar muito bonito, de clima agradável. Combinamos e saímos. Eram umas cinco motos e apenas dois estavam sem garupas. No meu caso o problema começou antes mesmo de sair de casa. Mesmo acostumada a viajar comigo, Maria nunca tinha pegado um trecho grande em uma viagem de três dias. O maior problema foi resolver a bagagem. É sempre complicada a primeira vez que uma garupa vai viajar por mais de um dia. É um trauma que elas nunca esquecem. A dica é conversar calmamente antes, pois a moto pode vir a ser pequena para levar tudo que elas querem.
Eu tinha confiado que apesar de já andar comigo e, diga-se de passagem – ser uma excelente garupa – a Maria já sabia o que levar e o que não levar. Mas eu me enganei. Para a minha surpresa vejo duas enormes mochilas para pendurar na Poposuda. Quando a gente viu (eu e a Poposuda) ela chegando com aquela bagagem, ambos gememos de dor. Começamos uma D.R. (Discutir a Relação), rolou até as famosas frases “Se for assim vai de ônibus!” e “…então vamos de carro!” Com muita calma fui explicando a ela o que não levar, mas era difícil de convencer e, a cada peça que tirava da mochila, eu notava uma profunda tristeza nos seus olhos, a ponto de ouvir a seguinte frase – “Sem meus sapatos e cremes eu sou metade de uma mulher!” Bom, essa metade de mulher que iria ficar era composta de tubos de xampu e creme daqueles enormes, fora os cremes de toda ordem (para pé, mão, olhos, face, pernas etc; e alguns pares de sapatos, algo em torno de três mais uma sandália além das botas que estaria usando). Estava instalado o drama. Depois de muita conversa, até que enfim, chegamos a um acordo. Eu arrumaria com ela a bagagem e ao final ela poderia ainda escolher o que levar desde que coubesse tudo dela nos dois alforjes. A minha bagagem iria na mala de tanque. O acordo era que se eu conseguisse mostrar que não usaria a metade da mochila que ela estava levando, da próxima vez, ela saberia como arrumar a bagagem. Viajamos e ao final da viagem, que foi excelente, ao chegarmos em casa, fomos desarrumar as mochilas e alforjes e para surpresa dela apenas um terço do conteúdo da mochila foi realmente usado; o restante foi mesmo apenas a passeio.
Depois desta experiência ela mudou seus hábitos. Agora leva na mochila apenas o básico. Os cremes e xampus vão acondicionados em vidros menores que a gente comprou apenas para este tipo de viagem. Uma dica para quando usar frascos menores é etiquetá-los depois de cheios, pois a maioria é da mesma cor e mulher gosta de tudo combinando. Não discuta, ajude, pois você já conseguiu se livrar dos tubos enormes de xampu. Hoje tudo ficou menor e os dois alforjes são mais do que suficientes para as coisas dela a ponto de sobrar espaço para trazer pequenos souvenires.
É interessante destacar alguns cuidados que você precisa ter com a garupa. Antes de sair para uma viagem cuide de proporcionar conforto a companheira. Conforto quer dizer um banco mais largo e um encosto mais macio (se a sua moto for uma custom). As motos custom por serem muito baixas, geralmente transferem parte do impacto de um buraco ou ondulação para piloto e garupa. Portanto, adote uma pilotagem mais gentil e macia, afinal vocês estão passeando. Outra recomendação é sugerir que ela leve seu MP4 com músicas preferidas. Isso vai ajudar a evitar conversa durante a viagem e assim te tirar a concentração. Escolha uma rota bonita aonde a paisagem vá sempre oferecendo novos visuais. Pode parecer bobagem, mas uma viagem em paisagem monótona, em retas que nunca acabam, geram estresse e desatenção. Muitos reclamam de sono. Por falar em sono, existem garupas que chegam mesmo a dormir sentadas. Algumas garupas descobriram uma maneira de cochilar sem perturbar a pilotagem, apesar de não ser uma postura e nem uma atitude segura.
Nas motos speed, esportivas ou as que não possuem maleiros, a bagagem geralmente é levada numa mochila que vai às costas da garupa. Minha sugestão é dividir a bagagem adotando uma mala de tanque. Assim você alivia o peso da garupa e economiza as suas costas. Nada é mais desagradável do que chegar de uma viagem de moto com problemas na coluna ou problemas musculares.
Quando viaja com garupas seu estilo de pilotagem muda bastante, pois o peso atrás, mais a bagagem, mexem no centro de gravidade da moto. Ainda vai aumentar o consumo sendo que nas retomadas, dependendo da cilindrada, a moto ficará mais lenta do que estaria se você estivesse viajando sozinho. Lembre-se disso, pois é comum motociclistas levarem sustos quando de uma ultrapassagem. Acontece que quando está sozinho, a moto responde mais rápido, inclusive nas retomadas, pois estará mais leve e será menor a área de atrito com o vento. Uma dica boa é nas motos de até 750 cilindradas você imaginar que com garupa e bagagem você perderá um terço do desempenho. Nem todas as motos são assim, mas essa conta ajuda a lembrar de que o desempenho dela numa ultrapassagem será bem diferente. Outra coisa que muda consideravelmente é a frenagem. Frear quando apenas você está em cima da moto é diferente de quando tem uma garupa e bagagem. Vai precisar de mais pista. O freio traseiro e o dianteiro vão exigir uma pressão a mais. Lembre-se disso.
Garupas de primeira viagem tendem a sair de casa de tênis, camisetinha, sem luvas e sem balaclava. Perca um tempinho tentando explicar isso a ela. Se você faz parte de um motoclube leve a sua companheira para uma reunião na qual as garupas mais experientes estejam presentes e peça para elas passarem as instruções. Eu usei isso e deu muito certo. Ela entendeu qual a finalidade de botas, calças mais resistentes, proteções para cotovelos e pernas, luvas e a balaclava. Se você deixar que elas mesmas expliquem a elas vai evitar um monte de problemas e aborrecimentos, pois só mulher entende mulher e desista, pois nem Freud explicou o que elas querem. Além do mais será uma ótima oportunidade para que a sua garupeira se socialize mais rapidamente no motoclube. Lembre a sua companheira para usar um protetor solar mesmo que esteja com jaqueta. O vento e o calor; ou até mesmo o frio costuma ressecar a pele.
Na pilotagem vale passar algumas dicas importantes. Não jogue muita informação, pois será coisa demais para lembrar na hora em que ela estará olhando a paisagem e ao mesmo tempo ouvindo música.
A garupa não deve subir na moto como se estivesse montando um cavalo. A maioria apoia um dos pés sobre uma das pedaleiras, passa a perna sobre o banco, apoia o outro pé sobre a pedaleira do lado de lá e senta-se. Tudo errado. Pedaleiras não foram feitas para suportar o peso de uma pessoa. Servem apenas como apoio e não são degraus. A maneira correta é passar a perna por cima do banco, sentar-se e em seguida ajustar-se ao banco. No começo pode até achar ruim, mas logo se acostumam. Se a moto é muito alta para a garupa e ela for bem levezinha essa regra pode ser quebrada. Mas apenas nesse caso. Garupas mais pesadas seguem a regra anterior. E pelo amor de Deus – nunca diga isso a uma mulher. Se o fizer, você deixará de ser fofo e passará a ser um ‘grosso’. Peça sempre a garupa para não subir na moto sem avisar ao piloto, ainda mais sobre pisos escorregadios ou irregulares. Oriente-a a subir apenas quando você fizer sinal.
Se a moto não tem sissy-bar, o ideal é que mantenha o corpo ereto ou, no máximo, incline-se levemente para frente. Pode segurar nas alças traseiras ou no piloto, mas prestando atenção para não sufocá-lo, arranhando capacete e a viseira do capacete dela e, nunca apoiar o peso sobre o motociclista, isso vai acabar com as costas do piloto e aumentar a pressão das mãos sobre o guidão prejudicando a pilotagem e a segurança.
Nas freadas e arrancadas, deve segurar-se nas alças (e não no condutor) ou compensar o desequilíbrio momentâneo com leves inclinações do corpo. Este é o único caso no qual a moto se parece com montar a cavalo. Nas motos com sissy-bar, basta encostar-se ali e manter os braços cruzados ou apoiados sobre os joelhos. Vai de cadeirinha, Nas custom o banco da garupa é geralmente mais elevado e isso dá uma visão privilegiada da viagem.
Quando for parar a moto peça a garupa para que espere o sinal para descer. Um dos grandes problemas é que elas podem descer pelo lado que os carros estão vindo e assim o risco de atropelamento é enorme. Descer ao sinal do piloto é fundamental e nesse momento a moto estará equilibrada e em local seguro. Não tente estacionar a moto com a garupa em cima. Minha dica é sempre desmontá-la em local seguro e em seguida estacionar a moto. A propósito, é comum ver pilotos carregando seu capacete e o capacete da garupa. Nunca faça isso. O equipamento da garupa é responsabilidade dela. Ela leva o capacete dela, as luvas dela e a jaqueta dela e você o seu equipamento. Cavalheirismo nessa hora serve apenas para cansar você ainda mais. Quando chegar ao destino tire primeiro a bagagem dela e depois a sua. Seja cavalheiro. Mulheres não gostam de ficarem longe de seus acessórios, cremes e maquiagem por muito tempo.
Em viagens é comum tirar muitas fotos com a moto ao fundo. Uma sugestão é programar as paradas antes. Nessa hora a gentileza conta. Deixe de ser ciumento e tire uma foto da sua companheira sentada na posição do piloto. São fotos bonitas e valorizam a moto, pois se existe uma coisa que deixa uma moto muito mais sedutora é a imagem de uma bela mulher vestida a caráter em cima dela.
Numa viagem é recomendado deixar a moto no hotel e rodar a cidade de taxi. Motos com placa de fora chamam muita atenção além de aumentar o risco de roubo. Aproveite a cidade, vão a restaurantes, museus, tomem umas boas cervejas ou um vinho sem se preocupar se a sua moto está bem. Se ela ficar no hotel estará muito bem guardada. É comum à saída encontrar pessoas tirando fotos ou até mesmo sentadas no banco da sua moto – a que venhamos é um sacrilégio, para não dizer uma heresia.
Na viagem vocês não conversam, apenas apreciam a paisagem e ela ouve música. No trajeto os pensamentos voam, a palavra é muda e ela vai aprender que numa moto problema não faz curva, mas quando chegarem não vai faltar assunto para conversar. Aproveite a viagem, divirta-se e tire muitas fotos.